sábado, 11 de janeiro de 2014

Comentários gerais sobre a correção dos trabalhos de Ética 1 - 2013



Os trabalhos corrigidos serão entregues à secretaria do curso até o final de janeiro e ficarão disponíveis por dois meses. Os alunos que não retirarem seus trabalhos não os terão novamente anotados.
Para cada erro assinalado, é marcado um "x" ao lado para facilitar a identificação;
Muito frequentemente os trabalhos carecem de exigências importantes: numeração das páginas, bibliografia ao final, referências precisas (ao número da página e a edição usada na forma de notas de rodapé) sempre que um outro texto é citado ou simplesmente indicado implicitamente pelo seu texto.

Sugestões gerais referentes à estrutura do texto:

A introdução por vezes está desconectada do tema tratado: é particularmente interessante que, se possível, ela formule uma questão ou problema que seu trabalho tem por fim solucionar ou discutir.
A proposta envolvia, em primeiro lugar, explicar os dois textos propostos. Diversos alunos fizeram isso fazendo um resumo geral do trajeto, mas sem por vezes nem mesmo mencionar onde os textos em questão se encontra. De todo modo, explicar um texto é explicar o que esse texto em particular diz, em detalhe. Para isso, é preciso ir considerando, passo a passo, as afirmações específicas que ele faz. E é apenas a partir delas que se deve recorrer a outros elementos do diálogo ou de fora dele. Seja como for, esses outros elementos sempre devem ser contextualizados, sem que se perca de vista o que eles significam no lugar onde aparecem. É um erro extrair frases do contexto e fazê-las dizer o que elas não dizem no seu contexto próprio. 
Por vezes, houve dificuldades em compreender os argumentos presentes no diálogo, bem como os conceitos próprios do texto (que são substituídos por simplificações que o tornam impreciso ou distorcem o sentido do que é dito ali.)

-- Análise da primeira passagem:
A primeira coisa a notar é que ela não apresenta, como alguns pensaram, um argumento, mas a conclusão de uma argumentação que é feita nas passagens imediatamente anteriores. A argumentação de S para sustentá-la é dialética, isto é, destinada a mostrar que a concepção oposta (segundo a qual a justiça é um bem secundário e por vezes oposto à obtenção da felicidade) se enreda em contradições e não pode ser sustentada. Noutros termos, S. está mostrando que Polos é obrigado a sustentar, a partir dos seus pressupostos, o contrário do que ele deseja. 
Ademais, a conclusão de Sócrtaes diz respeito, mais exatamente, à relação entre justiça e felicidade, apesar de oferecer elementos relevantes do que se poderia considerar a própria posição de Sócrates sobre o que é a Justiça. Nessa medida, parece interessante considerar, por exemplo, o modo paradoxal como as suas conclusões (sofrer uma injustiça é melhor do que praticá-la, praticar uma injustiça e não ser punido é pior do que praticá-la e não ser punido) opõem-se igualmente àquela que seria a posição comum sobre o assunto. Nessa medida, tal passagem parece conter uma espécie de posicionamento sobre a diferença entre o que a justiça é segundo as convenções (i.e.,aquilo que as pessoas tendem a pensar que seria justo) e o que ela é segundo a natureza (i.e., segundo o que a razão mostra que se segue a partir da tese de que a justiça é um bem; de tal modo que ela não seria, segundo a natureza, aquilo que Cálicles dirá que seja). 

-- Segunda passagem:
A passagem é bastante clara quando ao que seja a natureza da justiça, mas não com relação à sua relação com a felicidade. Levando em conta a progressão do texto, é interessante notar (como diversos alunos o fizeram) que a intervenção de Cálicles parece se valer de uma brecha deixada por S em sua argumentação contra Polos: equiparar o "reprovável (ou feio)'' ao "mau" é equiparar uma avaliação (em princípio subjetiva) à atribuição de uma qualidade propriamente pertencente à natureza da coisa. Sendo assim, sua solução para o problema posto é negar que se possa dizer que a justiça é um bem segundo a natureza em qualquer sentido que o seja. Isso já indica que estamos diante de outra concepção do que é a relação entre natureza e convenção. 

-- Contraposição: 
Parece-me que a forma completa de fazê-la envolveria considerar (1) as aparente semelhanças e diferenças entre ambos no que se refere à concepção de justiça (ambas pretendem oferecer uma crítica do que seria a justiça segundo a convenção, mas de formas inteiramente diversas) e (2) as diferentes relações que, a partir daí, ambos pretendem estabelecer entre a relação entre justiça e felicidade. 


-- Parte final: 
As conclusões são de modo geral interessantes de ler, mas para além de uma manifestação de "impressões" que podem ser quaisquer e não precisam ser propriamente justificadas, os sentimentos subjetivos que se têm, o que é preciso é uma discussão objetiva (mesmo que pessoal, coisas estas que não se excluem): são as razões em favor da posição a ou b adequadas? Por que? A posição x é correta? Por que?

O critério de qualidade para avaliar tal parte dos trabalhos diz respeito à sua conexão com o que foi discutido. Nesse sentido, pela simples organização e concatenação geral da discussão, uma discussão sobre as razões oferecidas pelo diálogo (e que procure mostrar por que tais razões são aceitaveis ou não) é melhor do que um posicionamento pessoal que parta de razões que não são exatamente as mesmas (pois, nesse caso, o que deveria ser discutido antes do que a sua própria posição é esse novo conjunto de razões, inclunido as de Socrates e Cálicles, que precisam ser agora cuidadosamente comparadas e ajustadas com as suas). Desnecessário dizer que, igualmente, esta parte será tanto melhor quanto melhor forem compreendidas a questão precisa que está em discussão, as teses que cada um dos interlocutores sustenta (o alcance próprio e preciso de cada uma delas) bem como as razões exatas que são oferecidas. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário