sábado, 26 de setembro de 2015

TEXTOS SOBRE ARCESILAU DE PITANÉ, DOS ACADEMICA DE CÍCERO, USADOS NAS AULAS SOBRE O CETICISMO ACADÊMICO

ARCESILAU

1) “[44]… Eis como eu (Cícero) entendo isso. Não foi um espírito de intransigência ou rivaliade (ao menos, assim me parece) que motivou Arcesilau à ampla rivalidade com Zenão, mas sim a obscuridade das coisas, que previamente levara Sócrates à sua confissão de ignorância – como, mesmo antes dele, levara Demócrito, Anaxágoras, Empédocles e virtualmente todos os primeiros filósofos a dizer que nada poderia ser conhecido, apreendido ou sabido, porque os sentidos são limitados, nossas mentes fracas, nossas vidas breves, enquanto a verdade estaria submersa no fundo de um abismo (como disse Demócrito), tudo seria sujeito a opinião e costume, nenhum lugar teria sido deixado para a verdade, e consequentemente tudo estava oculto pelas trevas. [45] Eis por que Arcesilau costumava negar que algo pudesse ser conhecido, e nem mesmo aquilo que restara a Sócrates, a saber, o conhecimento desse próprio dizer. Ele pensou que tudo estava tão profundamente oculto que nada podia ser conhecido ou entendido. Por essas razões, ele pensou que nós não deveríamos professar ou asseverar nada, nem aprovar com assentimento; deveríamos sempre conter nossa precipitação e resguardarmo-nos de qualquer lapso. Mas ele considerou particularmente precipitado dar assentimento a algo falso e desconhecido, posto que nada seria mais vergonhoso para o assentimento de alguém ir além do conhecimento e da apreensão. Sua prática foi consistente com sua teoria, de tal modo que, argumentando em cada coisa a partir das partes contrárias, em favor de cada uma das partes encontrava fortes razões, de modo a tornar mais fácil suspender o assentimento sobre ambas. [46] Eles consideram essa uma “Nova Academia”, embora eu pense que ela é antiga, admitindo que contemos Platão como parte da antiga. Nos seus livros nada é afirmado, há muitos argumentos de ambos os lados, tudo está sob investigação e nada se defende como certo…” (Cicero, Os Acadêmicos, I, 44-46)

2. “[76]… Você quer saber se a nós admitimos que a verdade tenha sido descoberta nos muitos séculos transcorridos desde os filósofos mais antigos, dado o grande número de intelectos que a buscaram com perseverança. Tratarei disso logo mais. Mas para ver que Arcesilau não brigou com Zenão com o propósito de destratá-lo, mas apenas porque desejava encontrar a verdade, considere isso: [77] nenhum dos predecessores de Zenão tivera jamais formulado ou sugerido a posição de que alguém pudesse não admitir opiniões – não apenas que pudesse, menos ainda que isso fosse necessário para o sábio. Arcesilau considerou essa posição verdadeira e honrosa, bem como correta para o sábio. Assim ele indagou Zenão, podemos supor, o que ocorreria se o sábio nada pudesse apreender, mas fosse uma marca do sábio não admitir opiniões. Zenão responde: sem dúvida, o sábio não admite opiniões porque há algo que se pode apreender. – O que seria isso? Uma impressão, suponho. Bem, qual tipo de impressão. Zenão então a define: uma impressão a partir daquilo que é, estampada, impressa e moldada tal como o que é. Depois, Arcesilau prosseguiu indagando o que ocorreria se uma falsa impressão fosse igual a uma impressão verdadeira. Neste ponto, Zenão seria suficientemente sagaz para perceber que nenhuma impressão poderia ser cognitiva se aquela que provém daquilo que é fosse tal que fosse semelhante àquela que provém daquilo que não é. Arcesilau concordou que esse seria um bom adendo à definição, uma vez que nem uma impressão falsa, nem uma impressão verdadeira que fosse idêntica a uma impressão falsa, seria apreensível. E assim ele passa a trabalhar com seus argumentos para mostrar que não há impressão proveniente de algo verdadeiro que não pudesse ser proveniente de algo falso. (Id., Op. cit., II, 76-77, grifo meu)

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