ARCESILAU
1) “[44]… Eis como eu (Cícero) entendo isso. Não foi um
espírito de intransigência ou rivaliade (ao menos, assim me parece) que motivou
Arcesilau à ampla rivalidade com Zenão, mas sim a obscuridade das coisas, que
previamente levara Sócrates à sua confissão de ignorância – como, mesmo antes
dele, levara Demócrito, Anaxágoras, Empédocles e virtualmente todos os primeiros
filósofos a dizer que nada poderia ser conhecido, apreendido ou sabido, porque
os sentidos são limitados, nossas mentes fracas, nossas vidas breves, enquanto
a verdade estaria submersa no fundo de um abismo (como disse Demócrito), tudo
seria sujeito a opinião e costume, nenhum lugar teria sido deixado para a
verdade, e consequentemente tudo estava oculto pelas trevas. [45] Eis por que
Arcesilau costumava negar que algo pudesse ser conhecido, e nem mesmo aquilo
que restara a Sócrates, a saber, o conhecimento desse próprio dizer. Ele pensou
que tudo estava tão profundamente oculto que nada podia ser conhecido ou
entendido. Por essas razões, ele pensou que nós não deveríamos professar ou
asseverar nada, nem aprovar com assentimento; deveríamos sempre conter nossa
precipitação e resguardarmo-nos de qualquer lapso. Mas ele considerou
particularmente precipitado dar assentimento a algo falso e desconhecido, posto
que nada seria mais vergonhoso para o assentimento de alguém ir além do
conhecimento e da apreensão. Sua prática foi consistente com sua teoria, de tal
modo que, argumentando em cada coisa a partir das partes contrárias, em favor
de cada uma das partes encontrava fortes razões, de modo a tornar mais fácil
suspender o assentimento sobre ambas. [46] Eles consideram essa uma “Nova
Academia”, embora eu pense que ela é antiga, admitindo que contemos Platão como
parte da antiga. Nos seus livros nada é afirmado, há muitos argumentos de ambos
os lados, tudo está sob investigação e nada se defende como certo…” (Cicero, Os Acadêmicos, I, 44-46)
2. “[76]…
Você quer saber se a nós admitimos que a verdade tenha sido descoberta nos
muitos séculos transcorridos desde os filósofos mais antigos, dado o grande
número de intelectos que a buscaram com perseverança. Tratarei disso logo mais.
Mas para ver que Arcesilau não brigou com Zenão com o propósito de destratá-lo,
mas apenas porque desejava encontrar a verdade, considere isso: [77] nenhum dos
predecessores de Zenão tivera jamais formulado ou sugerido a posição de que
alguém pudesse não admitir opiniões – não apenas que pudesse, menos ainda que
isso fosse necessário para o sábio. Arcesilau
considerou essa posição verdadeira e honrosa, bem como correta para o sábio.
Assim ele indagou Zenão, podemos supor, o que ocorreria se o sábio nada pudesse
apreender, mas fosse uma marca do sábio não admitir opiniões. Zenão responde: sem
dúvida, o sábio não admite opiniões porque há algo que se pode apreender. – O
que seria isso? Uma impressão, suponho. Bem, qual tipo de impressão. Zenão
então a define: uma impressão a partir daquilo que é, estampada, impressa e
moldada tal como o que é. Depois, Arcesilau prosseguiu indagando o que
ocorreria se uma falsa impressão fosse igual a uma impressão verdadeira. Neste
ponto, Zenão seria suficientemente sagaz para perceber que nenhuma impressão
poderia ser cognitiva se aquela que provém daquilo que é fosse tal que fosse
semelhante àquela que provém daquilo que não é. Arcesilau concordou que esse
seria um bom adendo à definição, uma vez que nem uma impressão falsa, nem uma
impressão verdadeira que fosse idêntica a uma impressão falsa, seria
apreensível. E assim ele passa a trabalhar com seus argumentos para mostrar que
não há impressão proveniente de algo verdadeiro que não pudesse ser proveniente
de algo falso. (Id., Op. cit., II, 76-77, grifo meu)
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