segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Textos de Sexto Empírico sobre as Causas (primeira parte).

            Caros alunos: dando sequência ao tema da última aula, seguem abaixo uma seleção de passagens de Sexto Empírico, filósofo cético pirrônico do início da era cristã, relevantes sobre as “causas”. Tais textos permitem comparações interessantes com a discussão de Hume na seção IV da Investigação sobre o Entendimento Humano, intitulada “Dúvidas céticas sobre as operações do entendimento.” É claro que este texto de Hume possui muitas diferenças com relação a este de Sexto e não há evidências conclusivas sobre se Hume o teria lido. Porém, um paralelo entre ambos pode suscitar várias ocasiões de reflexão sobre o tema.

Solicito a vocês que considerem as seguintes questões, para discussão em sala que ocorrerá a seguir:

1) Seria o conceito de causa que Hume tem em vista semelhante a esse que Sexto Empírico apresenta na primeira passagem?
2) Quando Hume pretende dizer que o entendimento ou razão não pode inferir a passagem da causa ao efeito, pretenderia ele mostrar algo similar ao que se lê na segunda passagem? A qual parte exatamente dessa segunda passagem?
3) Quais argumentos de Sexto Empírico seriam mais próximos ou mais diferentes dos argumentos que encontramos em Hume?
4) As conclusões a que ambos os autores chegam é a mesma? Ou haveria diferenças? Em especial, seria o resultado a que Hume chega semelhante à “suspensão do juízo” entre os dois conjuntos de argumentos presentes no segundo trecho abaixo apresentado?
5) Quais seriam as principais semelhanças e diferenças que vocês achariam possível de identificar entre as duas discussões (em Hume e Sexto)?

TEXTOS:



1. “iv. Causas:

[13] Para que os dogmáticos não tentem nos difamar por não possuírem contra-argumentos substanciais, nós apresentaremos perplexidades mais gerais sobre as causas ativas, depois de focalizar o conceito de causa.
A julgar pelo que dizem os dogmáticos, ninguém seria capaz de sequer conceber o que seja uma causa, pois, além de oferecerem conceitos de causa conflitantes e discutíveis, também tornaram efetivamente a subsistência das próprias causas indeterminável a partir da disputa entre eles. [14] Alguns dizem que as causas são corpos, outros que são incorpóreas. De modo geral, segundo eles, uma causa pareceria ser aquilo por cuja atividade um efeito ocorre – por exemplo, como o sol ou o calor do sol é causa da cera derretida ou do derreter da cera. (Já aqui eles tem debatido, alguns sustentando que as causas são causas de nomes, como “derretimento”, ou de predicados, como “ser derretido”…”
(Sexto Empírico, Hipotiposes Pirronianas, III, 13-14)

2. “v. É algo causa de algo?

É persuasivo que haja causas. Como poderiam, afinal, as coisas crescerem ou decrescerem, ou serem geradas ou destruídas, ou em geral mudar; ou como poderia haver qualquer efeito natural ou psicológico; ou como poderia o universo como um todo prosseguir no seu rumo ordenado, ou como poderia qualquer coisa ocorrer se não em virtude de alguma causa? Mesmo se nenhuma dessas coisas for real em sua natureza, nós diremos que é certamente por alguma causa que elas nos aparecem ser diversas do que elas efetivamente são. Ademais, se não houver causas, tudo seria produzido por tudo, como que por acaso; os cavalos, digamos, nasceriam de moscas e os elefantes de formigas; e na egípcia Tebas haveria fortes chuvas e neve, enquanto nos países do norte não choveria, se não houvesse causas pelas quais as regiões ao sul são chuvosas e as do leste são secas. E quem disser que não há causas é refutado porque, se afirma isso sem mais, sem indicar nenhuma causa, não convencerá ninguém, e se indicar a causa disso, ao desejar negar as causas ele as admitirá ao oferecer a causa de que não há causas.
Por essas razões é persuasivo, então, que haja causas. Que é também persuasivo dizer que nada é causa de nada ficará evidente depois de nossa apresentação de alguns dentre muitos argumentos que indicam isso.
Assim, é impossivel conceber uma causa antes de apreender seu efeito como efeito dela, pois somente reconhecemos que ela é uma causa desse efeito ao reconhecermos este como um efeito. Mas não podemos apreender o efeito de uma causa como seu efeito se não tivermos apreendido a causa desse efeito como sua causa, pois pensamos saber que ele é seu efeito apenas quando tivermos apreendido sua causa como causa dele. Logo, se, para conceber a causa, precisamos ter já reconhecido seu efeito, e para conhecer seu efeito, como eu disse, precisamos já ter conhecido a causa [como causa], o modo suspensivo da circularidade mostra que ambos são inconcebíveis: a causa não pode ser concebida como uma causa nem o efeito como um efeito, pois cada um requer o outro para ser persuasivo [persuasivamente reconhecido como tal], e não saberemos do qual começar para concebê-los. Assim, não seremos capazes de asseverar que algo é causa de algo.
Concedendo que seja possível conceber causas, elas serão julgadas inapreensíveis por causa da disputa [a esse respeito]. Pois alguns dizem que algumas coisas são causas de outras, alguns dizem que não são e alguns sustaram o juízo. Assim, aquele que diz que algumas coisas são causas de outras ou bem alega isso sem mais, sem ser impelido por uma causa razoável, ou dirá que assente a isso por certas causas. Se o diz sem mais, não será mais persuasivo do que aquele que diz sem mais que nada é causa de algo, e se alega causas pelas quais julga que algumas coisas são causa de outra estará tentando estabelecer o ponto em questão pelo próprio ponto em questão – pois estamos investigando se algo é causa de algo, e ele diz, supondo que houvesse causas, que algo é causa de haver causas. Ademais, uma vez que estamos investigando a realidade das causas, ele terá que oferecer uma causa para a causa de haver causas – e outra para isso ad infinitum. Mas é impossível oferecer infinitamente causas. Portanto, é impossível asseverar com firmeza que algo seja causa de algo.
Mais ainda, uma causa produz o seu efeito ou ou quando ela já é e subsiste como causa, ou quando ela [ainda] não é uma causa. Certamente, não o faz quando não é, mas se o faz quando é, deve ter subsistido antes e primeiro se tornar uma causa, desse modo instaurando o efeito que é dito ser efetivado por ela quando ela já é uma causa. Mas como causas são relativas a algo, a saber, aos seus efeitos, é claro que elas não podem ter subsistido antes disso como causas. Portanto, uma causa não pode efetuar aquilo de que ela é causa quando ela é uma causa. Mas visto que ela não efetua algo nem quando ela é não é uma causa nem quando ela já é, ela não efetua nada. Logo ela não é uma causa, pois uma causa não pode ser concebida como uma causa sem efetuar algo.
Por essa razão, alguns também alegam o seguinte. Uma causa deve, ou bem coexistir com seu efeito, ou pre-existir ao efeito, ou existir depois que o efeito ocorreu. Ora, dizer que uma causa tornou-se subsistente depois que o efeito se deu é seguramente ridículo. Nem pode ela pre-existir a ele, pois é dito que ela se concebe como relativa a ele, e eles mesmos dizem que os relativos, enquanto relativos, coexistem e são pensados conjuntamente um com o outro. Mas a causa não pode coexistir com o efeito, pois se ela deve efetuá-lo, e se o que vem a ser precisa vir a ser por meio de algo que já existe, então uma causa precisa antes tornar-se uma causa para, desse modo, produzir o efeito. Assim, se uma causa nem pre-existe o efeito, nem coexiste com ele, nem pode advir depois do efeito, presumivelmente ela não não subsiste de modo algum.
            (Fica claro que, por essas razões, também o conceito de causa é subvertido. Pois se uma causa, sendo relativa, não pode ser concebida antes de seu efeito, ao passo que, para ser pensada como causa do seu efeito, deve ser pensada antes do seu efeito, e se é impossível para algo ser concebido antes daquilo antes de que isso não pode ser concebido, então é impossível que as causas sejam concebidas.)
Dessas considerações decorre, finalmente, que, se os argumentos em virtude dos quais nós dizemos que as causas são plausíveis, e se aqueles que apóiam o estabelecimento de que não é correto asseverar que algo é causa de algo são também plausíveis, e se não é possível preferir um conjunto de argumentos a outros, uma vez que não possuímos signos, provas ou critérios consensuais, como se estabeleceu antes, impõe-se suspender o juízo também sobre a subsistência de causas, dizendo que, em vista do que os dogmáticos alegam, não mais há do que não há causas.” (id., ibid., III, 17-29)


Nenhum comentário:

Postar um comentário