Caros
alunos: dando sequência ao tema da última aula, seguem abaixo uma seleção de
passagens de Sexto Empírico, filósofo cético pirrônico do início da era cristã,
relevantes sobre as “causas”. Tais textos permitem comparações interessantes
com a discussão de Hume na seção IV da Investigação
sobre o Entendimento Humano, intitulada “Dúvidas céticas sobre as operações
do entendimento.” É claro que este texto de Hume possui muitas diferenças com
relação a este de Sexto e não há evidências conclusivas sobre se Hume o teria
lido. Porém, um paralelo entre ambos pode suscitar várias ocasiões de reflexão
sobre o tema.
Solicito a vocês que
considerem as seguintes questões, para discussão em sala que ocorrerá a seguir:
1) Seria o conceito de causa que Hume tem em vista
semelhante a esse que Sexto Empírico apresenta na primeira passagem?
2) Quando Hume pretende dizer que o entendimento ou razão
não pode inferir a passagem da causa ao efeito, pretenderia ele mostrar algo
similar ao que se lê na segunda passagem? A qual parte exatamente dessa segunda
passagem?
3) Quais argumentos de Sexto Empírico seriam mais próximos
ou mais diferentes dos argumentos que encontramos em Hume?
4) As conclusões a que ambos os autores chegam é a mesma? Ou
haveria diferenças? Em especial, seria o resultado a que Hume chega semelhante
à “suspensão do juízo” entre os dois conjuntos de argumentos presentes no
segundo trecho abaixo apresentado?
5) Quais seriam as principais semelhanças e diferenças que
vocês achariam possível de identificar entre as duas discussões (em Hume e
Sexto)?
TEXTOS:
1. “iv. Causas:
[13] Para que os dogmáticos não tentem nos difamar por não
possuírem contra-argumentos substanciais, nós apresentaremos perplexidades mais
gerais sobre as causas ativas, depois de focalizar o conceito de causa.
A julgar pelo que dizem os dogmáticos, ninguém seria capaz
de sequer conceber o que seja uma causa, pois, além de oferecerem conceitos de
causa conflitantes e discutíveis, também tornaram efetivamente a subsistência
das próprias causas indeterminável a partir da disputa entre eles. [14] Alguns
dizem que as causas são corpos, outros que são incorpóreas. De modo geral,
segundo eles, uma causa pareceria ser aquilo por cuja atividade um efeito
ocorre – por exemplo, como o sol ou o calor do sol é causa da cera derretida ou
do derreter da cera. (Já aqui eles tem debatido, alguns sustentando que as
causas são causas de nomes, como “derretimento”, ou de predicados, como “ser
derretido”…”
(Sexto Empírico, Hipotiposes Pirronianas, III, 13-14)
2. “v. É algo causa de algo?
É persuasivo que haja causas. Como poderiam, afinal, as
coisas crescerem ou decrescerem, ou serem geradas ou destruídas, ou em geral
mudar; ou como poderia haver qualquer efeito natural ou psicológico; ou como
poderia o universo como um todo prosseguir no seu rumo ordenado, ou como
poderia qualquer coisa ocorrer se não em virtude de alguma causa? Mesmo se
nenhuma dessas coisas for real em sua natureza, nós diremos que é certamente
por alguma causa que elas nos aparecem ser diversas do que elas efetivamente
são. Ademais, se não houver causas, tudo seria produzido por tudo, como que por
acaso; os cavalos, digamos, nasceriam de moscas e os elefantes de formigas; e na
egípcia Tebas haveria fortes chuvas e neve, enquanto nos países do norte não
choveria, se não houvesse causas pelas quais as regiões ao sul são chuvosas e
as do leste são secas. E quem disser que não há causas é refutado porque, se
afirma isso sem mais, sem indicar nenhuma causa, não convencerá ninguém, e se
indicar a causa disso, ao desejar negar as causas ele as admitirá ao oferecer a
causa de que não há causas.
Por essas razões é persuasivo, então, que haja causas. Que é
também persuasivo dizer que nada é causa de nada ficará evidente depois de
nossa apresentação de alguns dentre muitos argumentos que indicam isso.
Assim, é impossivel conceber uma causa antes de apreender
seu efeito como efeito dela, pois somente reconhecemos que ela é uma causa
desse efeito ao reconhecermos este como um efeito. Mas não podemos apreender o
efeito de uma causa como seu efeito se não tivermos apreendido a causa desse
efeito como sua causa, pois pensamos saber que ele é seu efeito apenas quando
tivermos apreendido sua causa como causa dele. Logo, se, para conceber a causa,
precisamos ter já reconhecido seu efeito, e para conhecer seu efeito, como eu
disse, precisamos já ter conhecido a causa [como causa], o modo suspensivo da circularidade
mostra que ambos são inconcebíveis: a causa não pode ser concebida como uma
causa nem o efeito como um efeito, pois cada um requer o outro para ser persuasivo
[persuasivamente reconhecido como tal], e não saberemos do qual começar para
concebê-los. Assim, não seremos capazes de asseverar que algo é causa de algo.
Concedendo que seja possível conceber causas, elas serão
julgadas inapreensíveis por causa da disputa [a esse respeito]. Pois alguns
dizem que algumas coisas são causas de outras, alguns dizem que não são e
alguns sustaram o juízo. Assim, aquele que diz que algumas coisas são causas de
outras ou bem alega isso sem mais, sem ser impelido por uma causa razoável, ou dirá
que assente a isso por certas causas. Se o diz sem mais, não será mais
persuasivo do que aquele que diz sem mais que nada é causa de algo, e se alega
causas pelas quais julga que algumas coisas são causa de outra estará tentando
estabelecer o ponto em questão pelo próprio ponto em questão – pois estamos
investigando se algo é causa de algo, e ele diz, supondo que houvesse causas,
que algo é causa de haver causas. Ademais, uma vez que estamos investigando a
realidade das causas, ele terá que oferecer uma causa para a causa de haver
causas – e outra para isso ad infinitum.
Mas é impossível oferecer infinitamente causas. Portanto, é impossível
asseverar com firmeza que algo seja causa de algo.
Mais ainda, uma causa produz o seu efeito ou ou quando ela
já é e subsiste como causa, ou quando ela [ainda] não é uma causa. Certamente,
não o faz quando não é, mas se o faz quando é, deve ter subsistido antes e
primeiro se tornar uma causa, desse modo instaurando o efeito que é dito ser
efetivado por ela quando ela já é uma causa. Mas como causas são relativas a
algo, a saber, aos seus efeitos, é claro que elas não podem ter subsistido
antes disso como causas. Portanto, uma causa não pode efetuar aquilo de que ela
é causa quando ela é uma causa. Mas visto que ela não efetua algo nem quando
ela é não é uma causa nem quando ela já é, ela não efetua nada. Logo ela não é
uma causa, pois uma causa não pode ser concebida como uma causa sem efetuar
algo.
Por essa razão, alguns também alegam o seguinte. Uma causa
deve, ou bem coexistir com seu efeito, ou pre-existir ao efeito, ou existir
depois que o efeito ocorreu. Ora, dizer que uma causa tornou-se subsistente
depois que o efeito se deu é seguramente ridículo. Nem pode ela pre-existir a
ele, pois é dito que ela se concebe como relativa a ele, e eles mesmos dizem
que os relativos, enquanto relativos, coexistem e são pensados conjuntamente um
com o outro. Mas a causa não pode coexistir com o efeito, pois se ela deve
efetuá-lo, e se o que vem a ser precisa vir a ser por meio de algo que já
existe, então uma causa precisa antes tornar-se uma causa para, desse modo,
produzir o efeito. Assim, se uma causa nem pre-existe o efeito, nem coexiste
com ele, nem pode advir depois do efeito, presumivelmente ela não não subsiste
de modo algum.
(Fica claro
que, por essas razões, também o conceito de causa é subvertido. Pois se uma
causa, sendo relativa, não pode ser concebida antes de seu efeito, ao passo
que, para ser pensada como causa do seu efeito, deve ser pensada antes do seu
efeito, e se é impossível para algo ser concebido antes daquilo antes de que
isso não pode ser concebido, então é impossível que as causas sejam
concebidas.)
Dessas considerações decorre, finalmente, que, se os
argumentos em virtude dos quais nós dizemos que as causas são plausíveis, e se
aqueles que apóiam o estabelecimento de que não é correto asseverar que algo é
causa de algo são também plausíveis, e se não é possível preferir um conjunto
de argumentos a outros, uma vez que não possuímos signos, provas ou critérios
consensuais, como se estabeleceu antes, impõe-se suspender o juízo também sobre
a subsistência de causas, dizendo que, em vista do que os dogmáticos alegam,
não mais há do que não há causas.” (id.,
ibid., III, 17-29)
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