(...) xi. O critério do ceticismo
Que nós seguimos aquilo que aparece é claro a partir do que
dizemos sobre o critério do ceticismo. “Critério” tem dois sentidos: há
critérios adotados para criar convicção sobre a realidade ou irrealidade de
algo (e trataremos desses critérios [critérios de verdade] quando passarmos à
sua crítica) e há critérios de ação, pelos quais nós, na vida prática,
realizamos algumas ações e não outras – e é desses que tratamos agora.
Dizemos que o critério da orientação cética é aquilo que
aparece, com isso implicitamente referindo às nossas representações, pois elas
dependem de afecções involuntárias e passivas que não estão, nessa medida,
abertas a questão. (Assim, ninguém, presumivelmente, discutirá sobre se uma
coisa existente aparece deste ou daquele modo; mas investigará se ele é tal
como aparece.)
Assim, seguindo o que aparece, vivemos de acordo com as
observâncias diárias, sem opinar – posto que não somos capazes de ser inativos.
Essas observâncias me parecem ser de quatro tipos, consistindo no guia da
natureza, na necessidade das afecções, na tradição das leis e dos costumes, e
nos ensinamentos dos saberes práticos. Pelo guia da natureza somos naturalmente
capazes de pensar e de sentir. Pela necessidade das afecções a fome nos conduz
à comida e a sede a beber. Pela tradição das leis e costumes, aceitamos, da
perspectiva do cotidiano, que a piedade é um bem e a impiedade é um mal. Pelo
saber prático, não somos inativos naqueles que praticamos.
E dizemos tudo isso sem opinar.” (Sexto Empírico,
Hipotiposes Pirronianas, Livro I, 21-24)
(...) x. Signos
Alguns objetos, então, de acordo com os dogmáticos, são
evidentes outros não-evidentes. E dos não-evidentes, alguns são definitivamente
não-evidentes, outros provisoriamente não-evidentes, outros não-evidentes por
natureza. O que por si mesmo vem ao nosso conhecimento é evidente (por exemplo,
“É dia”); o que não é de uma natureza tal a recair sob a nossa apreensão é
definitivamente não-evidente (por exemplo, “que as estrelas são pares em
número”); o que tem uma natureza evidente mas é não-evidente em vista das
circunstâncias é provisoriamente não-evidente (por exemplo, para mim agora, a cidade
de Atenas); o que não tem uma natureza tal que recaia em nossa percepção é
não-evidente por natureza (por exemplo, poros imperceptíveis – pois eles nunca
são por si mesmos aparentes mas julga-se apreendê-los, se isso ocorrer, através
de outra coisa, como o suor ou algo similar).
As coisas
evidentes, dizem eles, não precisam de signos: são apreendidas por si mesmas.
Nem as coisas que são não-evidentes de uma vez por todas, uma vez que não são
apreendidas de nenhum modo. Mas as que são não-evidentes provisoriamente ou por
natureza são apreendidas por signos – mas não pelos mesmos signos: coisas
provisoriamente não-evidentes o são por signos rememorativos, e as
não-evidentes por natureza por signos indicativos. Assim, segundo eles, alguns
signos são rememorativos, outros indicativos. Eles denominam um signo
rememorativo se, tendo sido observado junto com a coisa que ele significa, no
momento em que ele faz uma impressão em nós – e a outra coisa não está presente
– ele nos conduz a lembrar da coisa que foi observada junto com ele e não está
agora produzindo uma impressão evidente (como no caso do fogo e da fumaça). Mas
um signo é indicativo, dizem eles, se ele significa algo de que é signo, não
por ter sido observado evidentemente junto com a coisa, mas por sua própria
natureza e constituição (como os movimentos corpóreos são signos da alma). Eis
porque eles também definem signo assim: um signo indicativo é uma afirmação
pré-antecedente em uma condicional correta, reveladora de sua consequência.
Havendo
esses dois tipos de signo, nós não argumentamos contra todos eles, mas apenas
contra os signos indicativos, que nos parecem ser uma ficção dos dogmáticos.
Pois os signos rememorativos se mostram convincentes através da vida comum: vendo
fumaça, alguém infere o fogo; vendo uma cicatriz, ele diz que houve um
ferimento. Eis que nós não nos confrontamos com a vida comum, mas na verdade
nós lutamos do lado dela, assentindo sem opinar ao que se mostra convincente e
tomando posição contra as ficções privadas dos dogmáticos. (id., ibid, II,
97-102)
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