segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Sexto Empírico sobre as Causas (segunda parte)

(...) xi. O critério do ceticismo
Que nós seguimos aquilo que aparece é claro a partir do que dizemos sobre o critério do ceticismo. “Critério” tem dois sentidos: há critérios adotados para criar convicção sobre a realidade ou irrealidade de algo (e trataremos desses critérios [critérios de verdade] quando passarmos à sua crítica) e há critérios de ação, pelos quais nós, na vida prática, realizamos algumas ações e não outras – e é desses que tratamos agora.
Dizemos que o critério da orientação cética é aquilo que aparece, com isso implicitamente referindo às nossas representações, pois elas dependem de afecções involuntárias e passivas que não estão, nessa medida, abertas a questão. (Assim, ninguém, presumivelmente, discutirá sobre se uma coisa existente aparece deste ou daquele modo; mas investigará se ele é tal como aparece.)
Assim, seguindo o que aparece, vivemos de acordo com as observâncias diárias, sem opinar – posto que não somos capazes de ser inativos. Essas observâncias me parecem ser de quatro tipos, consistindo no guia da natureza, na necessidade das afecções, na tradição das leis e dos costumes, e nos ensinamentos dos saberes práticos. Pelo guia da natureza somos naturalmente capazes de pensar e de sentir. Pela necessidade das afecções a fome nos conduz à comida e a sede a beber. Pela tradição das leis e costumes, aceitamos, da perspectiva do cotidiano, que a piedade é um bem e a impiedade é um mal. Pelo saber prático, não somos inativos naqueles que praticamos.
E dizemos tudo isso sem opinar.” (Sexto Empírico, Hipotiposes Pirronianas, Livro I, 21-24)

(...) x. Signos
Alguns objetos, então, de acordo com os dogmáticos, são evidentes outros não-evidentes. E dos não-evidentes, alguns são definitivamente não-evidentes, outros provisoriamente não-evidentes, outros não-evidentes por natureza. O que por si mesmo vem ao nosso conhecimento é evidente (por exemplo, “É dia”); o que não é de uma natureza tal a recair sob a nossa apreensão é definitivamente não-evidente (por exemplo, “que as estrelas são pares em número”); o que tem uma natureza evidente mas é não-evidente em vista das circunstâncias é provisoriamente não-evidente (por exemplo, para mim agora, a cidade de Atenas); o que não tem uma natureza tal que recaia em nossa percepção é não-evidente por natureza (por exemplo, poros imperceptíveis – pois eles nunca são por si mesmos aparentes mas julga-se apreendê-los, se isso ocorrer, através de outra coisa, como o suor ou algo similar).
            As coisas evidentes, dizem eles, não precisam de signos: são apreendidas por si mesmas. Nem as coisas que são não-evidentes de uma vez por todas, uma vez que não são apreendidas de nenhum modo. Mas as que são não-evidentes provisoriamente ou por natureza são apreendidas por signos – mas não pelos mesmos signos: coisas provisoriamente não-evidentes o são por signos rememorativos, e as não-evidentes por natureza por signos indicativos. Assim, segundo eles, alguns signos são rememorativos, outros indicativos. Eles denominam um signo rememorativo se, tendo sido observado junto com a coisa que ele significa, no momento em que ele faz uma impressão em nós – e a outra coisa não está presente – ele nos conduz a lembrar da coisa que foi observada junto com ele e não está agora produzindo uma impressão evidente (como no caso do fogo e da fumaça). Mas um signo é indicativo, dizem eles, se ele significa algo de que é signo, não por ter sido observado evidentemente junto com a coisa, mas por sua própria natureza e constituição (como os movimentos corpóreos são signos da alma). Eis porque eles também definem signo assim: um signo indicativo é uma afirmação pré-antecedente em uma condicional correta, reveladora de sua consequência.
            Havendo esses dois tipos de signo, nós não argumentamos contra todos eles, mas apenas contra os signos indicativos, que nos parecem ser uma ficção dos dogmáticos. Pois os signos rememorativos se mostram convincentes através da vida comum: vendo fumaça, alguém infere o fogo; vendo uma cicatriz, ele diz que houve um ferimento. Eis que nós não nos confrontamos com a vida comum, mas na verdade nós lutamos do lado dela, assentindo sem opinar ao que se mostra convincente e tomando posição contra as ficções privadas dos dogmáticos. (id., ibid, II, 97-102)

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